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3 passos para curar relações
Insegurança
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"O padrinho de Florentino Ariza, antigo homeopata, se alarmou com o estado do enfermo, porque tinha o pulso tênue, a respiração rascante e os suores pálidos dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em nenhuma parte, e a única coisa que sentia de concreto era uma necessidade urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe, para comprovar uma vez mais que os sintomas do amor são os mesmos do cólera."

O trecho, extraído de uma das mais fascinantes obras do escritor colombiano, Gabriel Garcia Márques, cai como luva para algumas reflexões atuais.

O livro conta a história de um amor que sobreviveu ao tempo e tem como pano de fundo, o advento do cólera, doença que dizimou parte da humanidade no final do século dezenove.

Ao apresentar o romance entre Fermina e Florentino, ambientado nesse período, Márques narra com maestria, os sentimentos humanos que emergem em momentos de crise, e foi precisamente esse aspecto, que me inspirou a fazer um paralelo entre o período do cólera e esse momento tão inóspito que estamos vivendo com a escalada do corona vírus.

Mesmo com quase um século separando as duas epidemias, as semelhanças entre o ambiente emocional vivido no passado e o que estamos vivendo hoje, são impressionantes. O clima de descrença no conhecimento científico, e a exacerbação de sentimentos egoístas e mesquinhos, dão a tônica daquilo que pode emergir em situações de calamidade coletiva.

Vivências dessa natureza, trazem como subproduto, o que chamarei aqui de achismos, a ideia de que a opinião pessoal, é mais importante que os fatos acerca do fenômeno observado, essa tendência à personificação da realidade, parece estar ligada, entre outras coisas, a sentimentos de profundo desamparo; experiências de crise, escancaram aquilo que tentamos esconder por trás dos escombros da rotina diária: a certeza inexorável de que a realidade não tem compromisso com a justiça e, portanto, não fornece garantias.

Para suportar tamanha ausência de sentido, os seres humanos vão se agarrando àquilo que é conhecido, como forma de aplacar a dor de uma existência sem promessas.

Esse sentimento de angústia existencial, é um terreno propício à proliferação de pensamentos dogmáticos, que também se comportam como um vírus, adoecendo a capacidade de julgamento e crítica, e tendem a ser defendidos como verdade absoluta.

O autor nos chama atenção para a face obscura que os seres humanos podem apresentar, quando convocados a sair da sua zona de conforto e suposta segurança, para enfrentar um desafio social, que exige uma dose considerável de solidariedade e adaptação.

Contudo, para aprofundarmos essa reflexão, é preciso entender como os aspectos emocionais, derivados de uma epidemia podem se instaurar no imaginário social.

É preciso começar pela compreensão da própria doença.

O cólera era contraído pela ingestão de água contaminada, e entre os principais sintomas, estavam a diarreia intensa, vômito, desidratação e por fim, o quadro evoluía para a falência dos rins. A agressividade da doença era tão impressionante, que relatos da época, dão conta de um grande número de pessoas que apresentavam os primeiros sintomas quando acordavam e morriam no fim do dia.

Durante muito tempo, nada foi descoberto sobre a doença, e por isso, qualquer teoria que tentasse explicar a epidemia, era aceita como verdade; alguns estudiosos chegaram a afirmar que a transmissão do cólera, dava-se, pelo que foi denominado na época de "ar viciado", associada ao mal cheiro das grandes cidades, a doença ficou subestimada, causando vítimas fatais. Até que o médico inglês John Snow, não convencido dessa hipótese, passou a estudar, incansavelmente os lugares mais afetados de Londres, ele realizou um experimento no bairro do Soho, conseguindo provar que as pessoas contaminadas, haviam bebido água de uma mesma fonte, que estava contaminada por dejetos de esgoto.

As conclusões de Snow foram veementemente rechaçadas pelo pensamento médico vigente, que era sustentado pela teoria miasmatica, escola da medicina que acreditava que a causa das doenças, estava relacionada apenas, às condições climáticas.

Enquanto a resistência aos novos estudos, dividia a comunidade científica, fora das academias, a ciência era substituída pelo pensamento místico-religioso, que propagava a ideia de que tamanha tragédia, escondia um propósito divino: a limpeza e purificação da humanidade, ideia que funcionava como um consolo em meio à dor.

Mas, se por um lado, o pensamento religioso servia como explicação para o sofrimento, ainda haviam aqueles que, longe das universidades e dos templos, cultuavam a individualidade com unhas e dentes, recusando-se a qualquer medida, que ameaçasse o seu direito à liberdade, reivindicada em detrimento do coletivo.

 

"Capitão, o menino está preocupado e muito inquieto devido à quarentena que o porto nos impôs!

- O que te inquieta, menino? Não tens comida suficiente? Não dormes o suficiente?

- Não é isso, Capitão. É que não suporto não poder ir à terra e abraçar minha família.

- E se te deixassem sair do navio e estivesses contaminado, suportarias a culpa de infectar alguém que não tem condições de aguentar a doença?

- Não me perdoaria nunca, mas para mim inventaram essa peste! E me sinto privado da minha liberdade..."

 

O diálogo contundente entre os personagens de Márques, aponta para esse sentimento de individualismo.

As manifestações religiosas e egocêntricas, por assim dizer, são, em última análise, dois lados da mesma moeda, o deus estampado nas faces opostas é diferente, mas o produto final é o mesmo: a negação da realidade factível.

Muitas pessoas morreram antes que a microbiologia fosse aceita, como explicação científica para a transmissão de doenças graves.

Com grande perplexidade, o mundo acompanha o avanço de uma nova epidemia, causada por um vírus altamente letal, denominado Covid-19, que causa uma inflamação aguda nas vias respiratórias. Curiosamente, e porque não dizer, tristemente, temos observado o mesmo movimento de negação da realidade, estampando, diariamente, as manchetes dos noticiários.

Apesar dos dados estatísticos darem conta de uma gravidade e o número de mortes ser assustador, grande parte da população ainda apresenta uma resistência em aceitar os fatos, mesmo que estes, sejam provados por estudos científicos e que as evidências empíricas sejam irrefutáveis.

O que vemos hoje, é o crescimento do que entendo ser uma espécie de ditadura gospel, movimento que tem como característica, a substituição do conhecimento, por dogmas religiosos, esses "novos cristãos", demonizam tudo o que não é crença, e através do fortalecimento de verdadeiros guetos de pensamento, a fé encobre os dados estatísticos.

Ironicamente, eles defendem a sua verdade, com violência e intolerância, e andam de mãos dadas com o grupo daqueles que tem como deus, o seu próprio umbigo, e cultuam a liberdade individual, em detrimento do bem coletivo.

Assim como o cólera, esse novo episódio epidêmico, descortinou a frágil fumaça que esconde uma doença ainda pior, o espetáculo grotesco do nosso egoísmo.

Enquanto milhares de pessoas morrem todos os dias, em todos os lugares do mundo, assistimos ao esfacelamento do tecido social, evidenciando a fragilidade da nossa estrutura civilizatória. O pacto coletivo, que garante as inúmeras possibilidades de vida, parece estar ameaçado.

A falta de humanidade adoeceu os seres humanos.

Para fora do pieguismo que envolve a palavra, humanidade diz respeito ao ato radical de cuidar de tudo aquilo que é humano por excelência: as relações. A matéria prima de nossa existência, é a capacidade singular de estabelecermos ligações vinculares com nossos iguais, com os animais e com a natureza, construindo uma totalidade, que permite a manutenção da vida no planeta. Ao invés disso, odiamos nossos semelhantes, matamos os animais e destruímos o chão da nossa própria casa. Uma verdadeira barbárie.

Mas o tom pessimista e indigesto desse texto, dará lugar à profecia "marquiana", o autor da obra que me inspirou, não deixou dúvidas, sobre o antídoto para essa chaga aberta no coração da humanidade, o amor. Outra palavra que caiu no senso comum e está, como nos diria a filósofa Mosé, suja e encharcada de sentidos.

Quando bem lavada, é possível enxergar novamente, o frescor de seu significado primário, amar, é tão somente, o compromisso visceral com um outro, com os outros, com todos os outros.

Florentino amou Fermina por cinquenta anos, nove meses e quatro dias, até reencontrá-la, para continuar amando-a, como uma lufada de vida, em meio ao caos pandêmico.

A reflexão deixada por Márques, faz todo sentido, o único remédio que pode curar a cólera em tempos de Corona, ainda é a capacidade de abrir mão de ambições e prazeres pessoais, em nome da causa humana.

"-Privaram vocês da primavera, então? - Sim, naquele ano me privaram da primavera e de muitas coisas mais, mas eu, mesmo assim, floresci, levei a primavera dentro de mim, e ninguém nunca mais pode tirá-la de mim."

 

 

Alessandra Moitas

 

 

 

Referências

 

'O amor nos tempos do cólera' Gabriel Garcia Márques

'Palavra suja' Viviane Mosé

'O mal estar na civilização' Sigmund Freud

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